Com 80 milhões de negativados, país vive choque de renda: o diagnóstico e as soluções de George Lelis

Em entrevista ao Classe A, economista e consultor analisa os juros da Selic, rebate teses sobre o consumo, explica o fechamento de grandes varejistas e dá orientações práticas para proteger o orçamento doméstico e dos negócios.
1. Qual é a sua avaliação sobre o atual patamar da taxa Selic e o seu impacto real para o crescimento do país?
George Lelis: a Selic — taxa básica de juros da economia — atua como o principal "freio de mão" da atividade econômica, quando mantida em patamares elevados (na casa dos 14% ao ano, por exemplo), o objetivo central do Banco Central é conter a alta geral dos preços e controlar a inflação, contudo, o efeito colateral é direto: linhas de crédito e financiamentos tornam-se excessivamente caros. Como consequência, as famílias reduzem o consumo, as empresas postergam investimentos e a expansão econômica do país desacelera significativamente.
2. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou recentemente que a "sensação" de preço alto decorre de mudanças nos hábitos de consumo dos brasileiros, que estariam comprando mais. Como você avalia essa declaração?
George Lelis: a tese de que o encarecimento das compras decorre unicamente de mudanças de hábito ou aumento de consumo é uma simplificação que contrasta com os indicadores oficiais de preços e renda. O aumento do custo da cesta básica e dos serviços essenciais deriva, na verdade, de uma inflação de custos acumulada — que engloba a alta de commodities, insumos e logística —, somada à volatilidade cambial e a choques climáticos sobre a produção agrícola. O consumidor brasileiro não está expandindo gastos com itens de luxo; pelo contrário, está sendo forçado a substituir marcas, migrar para estabelecimentos mais baratos ou cortar itens essenciais para conseguir equilibrar o orçamento doméstico ao fim do mês.
3. Considerando os altos índices de endividamento e inadimplência, qual é o fator determinante que mantém o consumidor no vermelho: desemprego, inflação acumulada ou os juros do crédito rotativo?
Lelis: O endividamento atual das famílias é o reflexo de um triplo choque econômico. O principal motor desse cenário é o custo exorbitante dos juros do cartão de crédito rotativo e do cheque especial, que geram um efeito "bola de neve", transformando pequenos débitos em montantes impagáveis. A esse fator soma-se a inflação acumulada nos últimos anos, que corroeu o poder de compra e encareceu itens vitais como alimentação, energia e moradia, obrigando o uso do crédito para cobrir despesas correntes. Por fim, a prevalência de baixos rendimentos e do trabalho informal limita a formação de uma margem de segurança financeira, dificultando a reorganização das contas.
4. Como a perda do poder de compra decorrente do endividamento impacta os setores de comércio e serviços, considerando os mais de 80 milhões de negativados?
Lelis: Com mais de 81,7 milhões de brasileiros negativados em órgãos de proteção ao crédito (como SPC e Serasa), o comércio local sente o impacto de forma imediata. Embora o setor supermercadista mantenha o fluxo contínuo — já que a prioridade das famílias passa a ser estritamente a subsistência básica (alimentos e itens de higiene) —, itens de maior valor agregado, como móveis, vestuário, eletrônicos e lazer, têm suas compras adiadas indeterminadamente. Em polos de desenvolvimento regional, como Luís Eduardo Magalhães, percebe-se um desaquecimento acentuado do comércio de rua. Sem a liberação de crédito para os clientes, o comerciante enfrenta estoques parados, diminuição do fluxo de caixa e necessidade de promover liquidações com margens de lucro bastante comprimidas.
5. O recente fechamento de centenas de lojas por grandes redes varejistas, como as Casas Bahia, reflete quais transformações macroeconômicas e estruturais no Brasil?
Lelis: O reposicionamento operacional e o fechamento de unidades de grandes redes varejistas decorrem da convergência de três variáveis centrais:
Custo do capital e endividamento: altas taxas de juros elevam substancialmente o custo de rolagem de dívidas corporativas e o financiamento do capital de giro.
Aceleração digital e custos fixos: a aceleração das vendas via e-commerce reduziu a sustentabilidade de redes extensas de lojas físicas que carregam elevados custos imobiliários e operacionais.
Compressão de margens: houve um aumento contínuo nos custos operacionais aliado à incapacidade do consumidor de absorver reajustes de preços, em razão do elevado nível de comprometimento da renda familiar.
6. Qual é a sua principal recomendação para que pequenos empresários e famílias protejam seu orçamento nos próximos 12 meses?
Lelis: para atravessar este período com sustentabilidade, recomendo uma estratégia focada na gestão rigorosa de caixa, eficiência operacional e disciplina fiscal.
Para as famílias: A prioridade imediata é interromper a incidência de juros altos. Devem ser priorizadas a renegociação de dívidas atreladas ao cartão de crédito e cheque especial — aproveitando mutirões de conciliação para migrar para linhas de fi-nanciamento com parcelas fixas —, além do congelamento de novas compras parceladas de longo prazo e do início do planejamento de uma reserva de emergência gradual.
Para as Pequenas e Médias Empresas: O foco deve ser a preservação do capital de giro e a liquidez. Evite o endividamento bancário dispendioso para expansão no curto prazo, opte por estoques enxutos com alta rotatividade e renegocie prazos e condições diretamente com fornecedores. A aceleração da digitalização de processos ajuda a enxugar custos fixos.
Para a gestão pública local: O desenvolvimento econômico sustentável nas cidades exige que as prefeituras contem com equipes estritamente técnicas nas áreas de finanças, planejamento e desenvolvimento. A desburocratização de processos para a abertura de empresas, a responsabilidade fiscal e a otimização dos recursos públicos criam um ambiente favorável para atração de investimentos privados e geração de empregos na comunidade local.
Por Gilson Sena / Jornal Classe A






Comentários