• Por Gervásio Lima Jornalista e historiador

Terrorismo alimentar


O capitalismo desenfreado, entre outras coisas, tem contribuído para a crescente ideia de conceitos pré-estabelecidos em relação a padrões estereotipados por uma sociedade onde pessoas vivem e se preocupa cada vez mais pelas outras e com o que as outras pensam a respeito de si, mesmo indo de encontro ao que lhe realmente convém e faz bem.


Os padrões de beleza determinados pelas indústrias de cosméticos, têxteis e de alimentos, transformaram o dia-a-dia dos indivíduos de uma maneira a afetar inclusive o bem-estar e a saúde; não pelos males provocados pelos produtos consumidos, no caso dos alimentos, mas por achar que o seu corpo não obedece, por exemplo, ao que os comerciais dos ‘milagrosos shakes’ prometem transformar ou ao padrão de beleza exigido aos atores e atrizes de telenovelas e agora, às repórteres e apresentadores de TV.


Com um sentimento de culpa infindável, as mulheres, principalmente, chegam a não realizar uma alimentação saudável, com receio de que certos nutrientes e proteínas contidos nos alimentos que venham a ser consumidos possa proporcionar excessos de calorias no organismo. Loucura, loucura, loucura. Um verdadeiro ‘terrorismo alimentar’.


As pessoas não estão se aceitando e o pior, ainda dão pitaco nas vidas alheias ao observar e tecer comentários em relação aos perfis corporais. Ninguém pode ser cheinho, gordinho e, nem pensar, ser gordo. Ser magro não é mais sinal de desnutrição como diziam as vovós que só se contentavam em ver as bochechas gordas e rosadas dos netinhos para ter certeza que os mesmos estavam saudáveis.


O cabelo tem que ser o da moda, o tipo de vestimenta não obedece mais as estações do ano, os seios e o bumbum precisam de enchimento. O abdômen passou a ser chamado de tanquinho, o Alfazema Suiça, a Brilhantina, o creme rinse e o ruge são agora démodé. O perfume virou fragrância, enquanto o xampu agora é shampoo.


O culto à beleza posta não tem produzido o que se promete e ecoa, o da felicidade plena, ao contrário tem afetado a auto-estima daqueles e daquelas que se prestam a aceitar as determinações externas em detrimento do seu interior, da sua naturalidade.


O mocotó, o buxo e a tripa são responsáveis por causar infarto; a feijoada aumenta o colesterol ruim e a farinha traz riscos à obesidade e à diabetes, já o ovo, o famoso ‘zoiudo’ ou ‘disco voador’, esse acaba de deixar a lista dos vilões contra a saúde juntamente com o café que até em um momento não muito distante causava também diversos males.


O vinho e a cerveja também estão com moral elevada depois de estudos comprovarem (segundo alguns meios de informação) seus benefícios para a saúde. Espera-se que pesquisas mais apuradas comprovem definitivamente que a pinga traz de fato alegria, principalmente daqueles que adoram ir de encontro aos conceitos e padrões de beleza e alimentação.