Cantiga de grilo

Em todo o início de uma gestão municipal algumas palavras prevalecem nas falas dos novos timoneiros, entre as mais expressadas estão 'dificultar', 'arrochar', 'moralizar', 'lutar' e outros diversos verbos e adjetivos que são sempre acompanhados por substantivos como economia, saúde, educação e trabalho. O mesmo lengalenga enfadonho de sempre.

Nenhum prefeito, nunca, encontra ou encontrou uma cidade sem dificuldades financeiras ou sem problemas nas áreas de educação, saúde e infraestrutura. A população dificilmente é informada de forma clara sobre o que foi feito e quais as condições tiveram os governos que antecederam a maioria dos acusadores, ou melhor, dos novos gestores. Prevalece o não fez isso, nem aquilo e ainda gastou a mais do que deveria. Uma choradeira até justificável do ponto de vista da crise econômica que assola o país desde o início da arquitetura do golpe institucional vivido atualmente pelo país. Os municípios passaram a arrecadar menos e as transferências dos recursos federais passarão a diminuir e até mesmo serem cortadas. A recessão econômica é um fato. Todas as áreas foram atingidas e como consequência disto os menos favorecidos estão entre os mais prejudicados. 

Mas cada caso é um caso e cada prefeito é um prefeito. Alguns administradores são mais ousados que outros e logo nos primeiros dias de governo realizam aquisições que para o mais comedido dos economistas são milagres, por aparecer recursos de onde não se imaginava que fosse provável, mas para a descrença do mais súdito dos colaboradores é uma demonstração de competência de gestão e trato apurado com os recursos públicos. O chamado prefeito 'São João da Barra'.

Aluguéis de imóveis para abrigar secretarias, unidades de saúde e outros, compra de equipamentos eletrônicos e para escritório, locações de veículos e contratos emergenciais, com dispensa de licitação, para o bom funcionamento da máquina pública, são alguns dos primeiros atos dos governos que estão iniciando seus mandatos. Geralmente a população passa a fazer parte do segundo plano, às vezes do terceiro, quarto..., sem nada concreto em relação ao seu futuro. Apenas ações pontuais desassociadas aos benefícios coletivos.

Em discursos emocionantes, paternalistas e também patéticos, os novos gestores chegam a proporcionar aos apoiadores e asseclas em geral momentos de comoção, conseguindo mexer com os sentimentos saudosistas, bairristas e patrióticos. Lágrimas, abraços, apertos de mãos a olhares calorosos, tudo o que se tem direito um bajulador.

“Prometo lutar pela realização dos sonhos dos meus conterrâneos que quererem uma cidade mais justa, mais limpa, mais saudável e mais civilizada. Iremos trabalhar incansavelmente, seja de dia, de sol a sol ou a noite, de lua a lua. Nos doaremos de verdade para vermos cada filho, filha, moradores e moradoras desta terra querida bastante orgulhosos em ter escolhido nosso grupo para estar à frente desta honrosa missão. Iremos trocar as palavras corrupção por educação, sujeira por limpeza, doença por saúde e tristeza por felicidade. Nosso lema será trabalho, muito trabalho. Tenham certeza que traremos de volta a dignidade e junto com ela o desenvolvimento”.

Quem não ouviu ou leu algo parecido durante campanhas eleitorais ou em discursos de posses de prefeito certamente ainda irá ouvir. Esses discursos do tempo do ronca, mais batidos do que cantiga de grilo, inacreditavelmente consegue, ainda, enganar muita gente e é quase que padrão entre os políticos de município considerados de pequeno porte às grandes metrópoles, onde o povo é o mesmo, com diferenças às vezes somente na cultura (do ponto de vista cultural e não intelectual), no sotaque e na culinária.

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