• Por Gervásio Lima Jornalista e historiador

E agora José?


E agora, José? A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou, e agora, José? E agora, você? Poema de Carlos Drummond de Andrade, ‘E agora José’ foi’musicado por Paulo Diniz e até os dias atuais é uma das canções mais lembradas pelos brasileiros. Além da melodia cativante a interpretação imortalizada na voz “pigarreada” de um nordestino arretado, a música que faz sucesso desde 1974 mexe com a imaginação e a criatividade quando analisada por críticos profissionais e amadores.


Em uma das muitas análises, talvez a melhor já realizada até hoje, uma equipe de alunos da disciplina de Literatura Brasileira, da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Caratinga (FAFIC), em Minas Gerais, “o poema de Carlos Drummond de Andrade aplica-se aos milhares de Josés que transitam pela vida sem serem notados, ouvidos ou vistos. Aos Josés condenados pela sociedade à solidão e ao anonimato, que não tiveram nenhuma oportunidade de se realizar como homem. Que gritam, protestam, amam, mas têm seu grito sufocado pela indiferença, seu protesto ignorado e seu amor não correspondido, mas que continuam se arrastando pela vida sem saber onde vão chegar”.


O nebuloso e preocupante momento econonômico e principalmente político que passa o Brasil tem atingido de cheio e colocado em xeque muito do que antes era visto como sério e inatingível do ponto de vista moral e ilibado. Instituições e seus representantes se apresentam tais como caranguejos, atolados na lama em busca da sobrevivência. Enquanto isso, na sala de justiça (o dia-a-dia), super homens e mulheres maravilhas são vítimas de um sistema conrrompido e impiedoso que utiliza de prerrogativas concedidas geralmente através do voto para prejudicar suas criaturas.

Os super heróis brasileiros estão matando um leão por dia para sobreviver. Atônitos, começam a perceber que foram enganados por uma trupe criminosa que, além de surripiar o erário público, tem roubado sonhos e destruindo literalmente vidas. Como o ‘José’ de Drummond, a população passa a ter uma visão pessimista do cotidiano, sentir-se solitária, sem espaço e uma profunda angústia pela vida. A alegria e a felicidade já existiram, mas agora, "a festa acabou". Em seu lugar ficou a escuridão, o frio, o abandono. José está só.


“... Você mentiu me enganou

Dizendo que o seu amor

Não era de mais ninguém

Juro que acreditei

Com tudo me apaixonei

Pelo seu jeito também

Na vida nada é perdido

Pra tudo tem um sentido

A gente tem que aprender ...”

Foi bom te amar – Jorge de Altinho