Raul Seixas podia ser um chato, magrelo, com barbicha de bode, cabelo espevitado e até ter a voz chata e renitente. Podia. Em 1976, quando gravou “Eu também vou reclamar” para seu quinto disco de estúdio, “Há Dez Mil anos atrás”, os problemas e as chatices eram bem diferentes das de hoje. A Guerra do Vietnã, por exemplo, chegava ao fim, o Canadá sediava as Olimpíadas e no Brasil, morriam os ex-presidentes Juscelino Kubitschek e João Goulart. Ah, em 1976 também aconteceu o primeiro vôo comercial do avião supersônico Concorde. No país reinava a ditadura e, mesmo assim, contra tudo e todos, o “maluco beleza” cantava que “agora” pra fazer sucesso e vender disco de protesto todo mundo tinha que reclamar.
Confesso que não sei se Raul gostaria de ver o mundo do jeito que está hoje. Meio virado ao avesso. Talvez ele dissesse que sua música já não mais faria sentido, afinal, por mais que todo mundo reclame, ninguém se entende e se respeita e a juventude só pensa em ficar “doce” e em rimas pobres que tentam casar “balada” com “galera”. Em suma, está tudo uma balbúrdia. Todos reclamam e todos querem para si o direito de ser e estar, mesmo que para isso, acabem pisando na goela de outros tantos que discordam das suas opiniões. Talvez Raulzito fosse achar o máximo a revelação de sua conterrânea Daniela Mercury e emendasse frases como “viva o amor livre”. Sei lá. É possível também que o homem que achou que Al Capone devia se emendar, considerasse o crédito que dão pro tal do Feliciano muito maior do que ele de fato merece. Vai saber.
Arrisco até, que, caso Raulzito estivesse conosco no sábado à noite, ele iria chorar de rir, antes de pegar o violão para reclamar. Pois vejam só: entre 20h30 e 22h, num posto de conveniência e combustível (ou será o contrário?) um motorista qualquer estaciona o carro de ré e aumenta o volume do som como se todos a volta quisessem ouvir o que saía dos auto-falantes. Pega uma latinha da pior cerveja que existe e senta na parte externa do posto. Discute com a mulher. Faz cara feia. Exalta uma feição de superioridade como se fosse, ele, a última bolacha do pacote. Manuseia o controle remoto e, zapeando entre uma faixa e outra, dilacera os ouvidos alheios – e olha que não eram poucos - com músicas de gosto duvidoso e letras de cunho sexista como “treme o bumbum” e “rebola até o chão”. Quando alguém reclama, ainda que moderadamente, o irritadiço sobe na plataforma e questiona: “Quer ouvir o que? Me dá que eu coloco”. Com cara de poucos amigos quando vai embora desafia com olhar ameaçador aqueles que apenas queriam ter o seu direito ao silêncio respeitado, já que no local é PROIBIDO som automotivo.
Consigo até imaginar o velho Raul, com os dentes amarelos, o rosto cheio de rugas e um cigarro enfiado no canto da boca, munido de um violão desafinado retrucando: “tô trancado aqui no quarto, de pijama porque tem visita estranha na sala, aí eu pego e passo a vista no jornal”. É pra rir sim, mas, é bom que fique claro: o problema não é a música que o cara (do posto de conveniência/combustível – ou vice-versa) ouve, mas a forma exagerada e a necessidade em fazer com que todos em volta também a ouçam, mesmo que a contragosto. Um pouco mais de respeito e bom senso às vezes cai bem.
Aliás, isso vale para os que defendem os direitos dos homossexuais, dos evangélicos, dos ateus, dos espíritas, dos alérgicos a camarão e amendoim, dos gordinhos, dos magricelas, enfim, de todos que por um motivo ou outro, se acham no direito de sempre ter de “reclamar” e achar que a sua bandeira é melhor que a do outro. Pois, sem respeito, não é e não é mesmo.
Fonte:
Jornal Classe A