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Anton Roos
Ponto de Vista
MULHER COM “M” MAIúSCULO
Nada mais justo que homenagear, em vista do 8 de março, as mulheres. Todas, sem exceção, que fazem do nosso dia a dia, muito mais prazeroso. Por ousadia, nada mais que isso, dedico esta coluna para as meninas, dando continuidade a história iniciada na edição nº 172, que teve como título “Pra não esquecer”. Um recorte da trajetória de uma brasileira de metro e meio de altura que enfrentou a todos para representar a pátria na Segunda Guerra Mundial: Aracy Arnaud Sampaio.

A formatura no Curso de Enfermeira Socorrista da Cruz Vermelha Brasileira aconteceu em dezembro de 1942. No ano seguinte, a jovem voluntária trabalhou no Hospital Santa Izabel em Salvador, onde ajudou a cuidar dos brasileiros vitimados pelos torpedeamentos nazistas que – aquela altura - assolavam a costa marítima do país. Em 1944, com a abertura do voluntariado, a destemida barreirense informou a família que estava decidida a ir à guerra. Inscreveu-se e esperou pelo chamado.

Quando soube que estava entre as voluntárias que iriam para a Itália, em agosto de 1944, era um caminho sem volta. Ciente da possibilidade de não retornar para casa, Aracy resolveu distribuir seus pertences entre amigos e parentes: uma criação de preás de várias cores e cada qual com seu nome, um passarinho de estimação, roupas e livros. A proximidade do embarque intensificou o treinamento. Além das práticas normais de enfermagem, as 73 voluntárias brasileiras, fizeram treinamento baseado naquilo que poderiam encontrar na guerra.

Durante o curso, uma a uma, as voluntárias brasileiras foram apresentadas ao General Souza Ferreira, á época, Chefe do Serviço de Saúde do Exército. Na sua vez, Aracy recorda o olhar duvidoso e as palavras do General: “A senhorita não tem físico para uma enfermeira de guerra”. Calmamente, e sem se deixar abater pela afirmativa do superior, respondeu: “Se o senhor tem capacidade de me tirar, tire, mas saiba que eu sou classe especial e fui a primeira aluna da minha região”. O General Souza Ferreira, insatisfeito com a resposta da enfermeira voluntária retrucou: “E ainda mais é desaforada”. Sem perder a compostura e fazendo valer o 9,6 tirado no teste do voluntariado, Aracy exclamou em tom solene: “Eu vim como enfermeira, e não para ser avaliada como miss”.

A pequena voluntária baiana ganhou credibilidade. Trabalhou com afinco e dedicação, até a partida para a Itália em outubro. Medo era palavra que não existia em seu dicionário. “Nunca tive medo, quando a gente é jovem, idealista, pelo menos no meu caso, o medo não existe. A partir do momento que tomei a decisão, não podia ter medo”, relembra. A viagem para Itália contou com longos dias de sobrevôo sobre o oceano e o deserto africano. A maioria dos tripulantes nunca havia entrado em um avião. Os enjôos eram freqüentes e algumas paradas imprevistas se tornaram inevitáveis. Em Dacar, no Senegal, o calor era infernal. Os homens usavam pesadas vestimentas negras e exalavam mau cheiro. Durante a única noite que permaneceram na cidade, cada uma das enfermeiras voluntárias precisou ser acompanhada por um nativo. “Como os homens lá estavam muito tempo sem mulheres, cada enfermeira teve um africano tomando conta, sentado no pé do leito, no acampamento. Isso pra evitar que os americanos se aproximassem das enfermeiras e fizessem qualquer coisa”.
A chegada a Itália causou péssima impressão. Arruinada pelos bombardeios nazistas, Nápoles era uma cidade desolada e fria. Cansadas pela estafante viagem, as enfermeiras tiveram alguns dias para descansar antes de novo embarque, por via marítima, até Livorno. A viagem renderia novas emoções para as recém chegadas brasileiras. Em determinado momento da travessia, o chefe americano chamou a tripulação ao tombadilho do navio e disse: “Aquele que tiver fé, ore, Nós iremos atravessar um local onde muitos navios já foram torpedeados”. O navio seguia sozinho, sem comboio, por uma região famosa por possuir minas submarinas. O vento frio que rasgava o horizonte deixava no ar uma sensação mórbida. Ao lado de Aracy, uma colega começou a chorar. Firme diante da incerteza que se aproximava, a reação de Aracy foi imediata. “Dei-lhe um beliscão e disse a ela: não me faça essa vergonha, você veio. Agora se porte com coragem”.
A todas as mulheres que mesmo diante das incertezas e provações da vida se portam com coragem, parabéns.


Anton Roos é jornalista
E-mail: antonroos@gmail.com
Twitter: http://twitter.com/antonroos79
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