A batalha de Dona Célia contra as drogas
Postada em: 13/05/11-17:34:04
Escrita por: Heloíse Steffens
Fotos: Gilson Sena / Classe A
A garantia para os três primeiros meses de internação no centro localizado em Jequié (BA), a mãe já possui, resta a ela agora a certeza para continuidade do tratamento
A história de vida da Dona Célia Alves, pelo menos na maior parte dos capítulos, sempre foi marcada por muito sofrimento e dificuldades, de todas as ordens, principalmente, financeira. Separada há 18 anos do marido, com quem teve quatro filhos, não foi fácil dar sustento à família, tendo mais tarde se deparado ainda, com o fato do único filho homem ter se envolvido com drogas.
Desde a descoberta do vício do filho, a senhora de 48 anos de idade e de corpo franzino – pela estatura baixa e porte magro, engana pela aparência que possui, que lhe passa a impressão - num primeiro momento, de ser frágil e delicada. Esta, na verdade, tem provado nos últimos nove anos, que além de ser uma verdadeira mãe no significado da essência da palavra, é também uma mulher de coragem, que serve de exemplo de vida e de lição de coragem para muitas pessoas.
E foi justamente essa força de vontade para continuar travando contra aquela que é considerada a pior das batalhas - as drogas, que ela emocionou autoridades, membros e convidados do Conselho Comunitário de Apoio à Segurança Pública (Conseg/LEM), na reunião da última quinta-feira, 05, realizada no auditório do Hotel Paranoá. Convidada pelo tesoureiro Fernando Murata, depois de ouvir a sua súplica na Rádio Cultura FM, ela apelou para o lado humano de todos os presentes, fazendo um relato de sua vida e da atual condição vivida.
A sua ida até o encontro que tem por objetivo a discussão e busca de medidas que amenizem o problema da violência e que possam vir a trazer mais segurança para todos, se deu com o intuito de conquistar o apoio financeiro para a internação do filho de 23 anos de idade. Ela saiu do auditório com águas nos olhos, que tomavam a conta de sua face, e também com os R$ 1.500, valor que corresponde à antecipação de três meses de internação no centro de recuperação para viciados.
“O valor já está completo, e fiquei muito feliz. Desse dinheiro, só está faltando o valor de R$ 240, pelo qual o prefeito se comprometeu. Só estou dependendo do recebimento deste para encaminhar o meu filho para a clínica”, disse ela emocionada, e feliz por ter tido a sorte de encontrar-se com o prefeito na referida reunião. Para ela, mais do que a esperança de cura, a internação do filho significa a possibilidade de ter seu filho de volta e, de aos poucos, ver a concretização de todos os seus sonhos.
O primeiro dos sonhos já começa a ser realizado. Depois de furtar de dentro da casa da mãe uma máquina digital, esta determinou que o filho aceitasse ser ajudado, internando-se numa clínica de reabilitação, do contrário, não mais seria aceito dentro de casa e, a polícia seria chamada, caso atitude semelhante a esta do furto voltasse a ocorrer. “Eu nunca o abandonei, pelo contrário, sempre busquei por apoio psicológico para permanecer firme no meu propósito, mas na minha casa não queria mais, se ele não aceitasse a internação”, conta.
Recaída
Mais recentemente, este voltou a estudar, mas teve forte recaída. “Meu filho sempre trabalhou para manter o vício, pois sempre teve oportunidades, mas agora ele está desempregado, está recaído. Meu receio é de que a droga leva à mentira, como pode levar a roubar também para pagar aquilo que se compra por mixaria, como a cola e o tiner”, lamenta. Antes que este venha a ser o caminho escolhido pelo filho, comemora a aceitação dele em receber ajuda e ser internado, onde nesta última quarta-feira, 11, ela relembra que completam exatos oito dias quando disse “Sim” à mãe.
“Meu sonho maior era que ele aceitasse ajuda, e depois de mandar ele embora, ficou do lado de fora da casa chorando e pediu: Mãe, deixa eu entrar e falar com a senhora. Me ajuda, me ajuda a sair desse buraco”, relembra Dona Célia, já com os olhos novamente cheios de lágrimas. Em resposta, a mãe voltou atrás e disse: “Esperei a vida toda por esse pedido”. A partir daí, a mãe buscou pela rádio com o objetivo de conseguir apoio financeiro para “internar onde será bem recebido, pra sair para a sociedade de novo, não como um drogado, mas como cidadão”.
Manifestação de ajuda
Dentre as pessoas que já manifestaram ajuda, está o tesoureiro do Conseg, Fernando Murata, a dentista Claúdia Marcela Ponga e a dentista Débora, Carlos Cerentini, da Loja Maçônica e o prefeito Humberto Santa Cruz. “Não tenho vergonha de pedir porque realmente preciso, só tenho vergonha de roubar. E hoje estou muito feliz, porque temos pessoas boas em Luís Eduardo Magalhães”, pontua. A garantia para os três primeiros meses de internação no centro localizado em Jequié (BA), a mãe já possui, resta a ela agora a certeza para continuidade do tratamento, para o qual algumas pessoas já se dispuseram.
“Não conquistei bens, porque sempre fui desapegada a bens materiais e porque a condição não deixou, meu sofrimento foi sempre esse. Sendo ele o meu único filho homem, dediquei tudo a ele, só vivi até agora por ele, e pra ele. Foi sempre assim. Ele é um homem bom, não faz mal a ninguém, só a ele mesmo. Por isso espero que ele volte a ser o que era, que se forme, como as outras formaram. Ainda vou ter meu filho de volta, pois já sofri demais”, desabafa. Ainda que as coisas em muito já tenham mudado, a situação permanece difícil.
Morando de aluguel, que lhe tira o pouco que consegue arrecadar vendendo crochê de porta em porta, de casa em casa, ela espera logo ser contemplada com uma casa popular, para a qual já se inscreveu junto ao governo municipal. “Hoje pago R$ 250 de aluguel, e o dono é muito bom, sempre me espera, mas já morei em lugares em quê as pessoas nos mandavam embora, sempre que descobriam que meu filho era um viciado. Já fui por diversas vezes expulsa dos barracos, mas aqui fui muito bem recebida”, ressalta.
Na renda da família, está à bolsa família no valor de R$ 70, uma cesta que recebe da prefeitura municipal e a arrecadação com a venda dos crochês. Ela agradece as pessoas que tenham interesse e possam ajudá-la em mais esta batalha, haja vista que o período de internação para tratamento varia de nove meses a um ano. Os interessados podem entrar em contato com a filha de Dona Célia, pelo telefone (77) 9939-8602 ou diretamente com a redação do Jornal Classe A, 3639-0108.
Fonte: Jornal Classe A
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