Gosto de escrever com o ventilador funcionando. Tenho duas razões para isso. Primeiro, o calor. Se está quente e abafado nada mais justo que manter o ambiente fresco. Além do mais, “trabalhar” o intelecto jorrando suor pelos poros, não é de todo interessante, e o local onde costumo produzir meus textos não dispõe de ar condicionado.
Segundo, pois considero o som produzido por esse eletrodoméstico muito mais agradável que o de uma televisão ligada simultaneamente ao ato de escrever.
Tenho outras manias quando sento diante do computador para redigir, mas prefiro mantê-las em segredo. Grosso modo, o que interessa mesmo aqui é o quanto somos influenciados pelo meio onde estamos e/ou vivemos. Sem adentrar em mares de ondas turvas e que exijam uma maior profundidade para a tese defendida, adianto que, em principio, terei como foco aquele que escreve, ou por hobby, ou por profissão. Assim sendo, julgo-me apto a afirmar que aquele que escreve também é influenciado, e muito, pelo “meio”. Aliás, se fosse contabilizar a quantidade de temas inspiradores que brotam no meu arcabouço mental todos os dias, teria em poucos meses material para um livro. Entretanto, até o momento, nem sinal de livro, quiçá um com qualidade suficiente para valer qualquer tipo de investimento.
Não posso, nem pretendo culpar a falta de leitura pelos hiatos sem escrever. Seria injusto. A culpa é muito mais particular que qualquer outra coisa. Apesar de gostar e muito deste laboro, existem momentos que me faltam inspiração. Poderia aliar a isso, o pouco tempo para realização de um trabalho adequado que ainda assim, estaria cometendo um erro grosseiro. Isso, pelo simples fato de estar justificando uma falha particular, minha e de mais ninguém. A propósito, esse é outro tema concomitante e que merecia mais discussões: o quanto procuramos justificativas em outros meios para nossas imperfeições.
Voltando ao embrião dessa missiva, é comum, sempre que procuro escrever algo, manter a risca certos rituais. Ao abrir o editor de texto, sempre (esse sempre é a tradução mais fidedigna possível da verdade) configuro a página da mesma forma: Fonte Arial, tamanho 12, zoom 85%, um “enter” entre parágrafos. Tenho a impressão, caso não proceda desta forma, que o texto não vai vingar, ou que, mesmo vingando, saia muito aquém “minhas” expectativas. Uma vez mais, reforço o explicitado no título, tudo isso não passa de reflexos do meio, desta feita revelado de uma maneira um tanto diferente, mas que não foge a regra.
Tenho um amigo jornalista, residente no interior do Rio Grande do Sul. Ele insiste que lhe falta tempo para criações mais freqüentes. E olha que o referido amigo é um profissional de mão cheia e extremamente talentoso. No caso dele, a culpa do meio materializa-se na necessidade de exercer outras funções e atividades, pura e simplesmente pela “sobrevivência”, ora pois, se mantivesse uma rotina de pesquisa e produção textual diária para alimentação do seu blog, certamente, morreria de fome.
A tristeza evidencia-se pela pobreza do que se vê e lê ultimamente Brasil a fora, principalmente o que é veiculado pela grande imprensa. Enquanto excelentes profissionais vivem à margem do mercado, outros, motivados pelo “meio” opressor e elitista que nos cerca, sobrevivem, criando conceitos e rótulos na já deturpada mente da opinião pública brasileira.
Em contra partida, um colega me confidenciou estar temerosa por seu futuro. Incrédulo, questionei o porquê de tal afirmativa. Tal qual foi minha surpresa, quando a jovem disse que só consegue trabalhar sob pressão. E aí eu pergunto: de onde vem essa pressão, senão do meio que vivemos, no caso, do meio que ela vive, e de onde foi parida e educada.
A mim, resta o barulho do ventilador, a confusão de minha mente, borbotando uma camada de ideias e pensamentos novos a cada fração de segundo e uma certeza única e real: Precisamos manter a fé. Seja em quem, para quem ou motivados por quem ou o que for. Caso contrário, corremos um sério risco, de enlouquecermos. E ai nobre leitor, haja sanatórios.
Anton Roos é formando em jornalismo pela Faculdade São Francisco de Barreiras – FASB
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Fonte:
Anton Roos