Descobri que sou um tio legal. Estava sentado em uma muretinha,
bebericando refrigerante e comendo cachorro-quente. Aniversário surpresa
do William. Conversando futilidades e pensando em roubar algum docinho
da mesa central da festinha. Na tarde anterior, quando o céu ameaçava
despejar toda sua fúria, sai em busca de um presente para o guri. Seis
anos. Na loja de brinquedos, resolvi ir direto ao ponto:
- Tu tens, por um acaso, algum helicóptero de controle remoto – disse,
recordando que antes do Natal este fora o pedido de William para o Papai
Noel.
- Tenho sim senhor, são R$ 340 reais.
Sem hesitar dispensei até mesmo uma olhadela descompromissada no
brinquedinho. O tal helicóptero movido por controle remoto,
definitivamente, estava fora do meu orçamento. Antes que pudesse esboçar
qualquer sinal de tristeza com o valor exorbitante do mimosinho,
resolvi deixar a vendedora usar sua experiência para me indicar algum
item que valesse a pena investir, e, claro, tivesse um valor menor.
Afinal, um bom presente não necessariamente precisa ser o de maior
valor. As crianças precisam estar em atividade o tempo todo, brincando e
correndo e pulando até que tenham gasto todas suas energias.
Prestativa, a vendedora me mostrou uma, duas, três alternativas. Nada.
Quando estava por desistir e me declarar o pior comprador de presentes
do mundo, a simpática morena tirou da cartola sua mais audaciosa
cartada. Argumentou com propriedade. Persuadiu-me a comprar, embora eu
já travasse uma luta implacável com a dúvida.
Será que compro? Será que ele vai gostar? Será que a mãe dele vai
gostar? Quanto tempo isso vai durar? E se ele não gostar e reclamar?
Inteligente, ela me bombardeou com suplementos. Outros mimos que juntos
fariam daquele um presente e tanto para William. Convencido, bati o
martelo e pedi que me vendasse os olhos ao passar o cartão.
Comprei.
Quando percebi a movimentação de William e sua mãe junto dos presentes,
aguardei pela reação do pequeno. Já sem refrigerante no copo e apertando
o guardanapo para limpar o molho de cachorro quente dos lábios, vi
quando os olhares se voltaram para mim.
- Pergunta pro tio Anton se foi ele quem te deu isso – disse a mãe à William.
Com a rapidez de um guepardo e o presente em mãos, William me indagou ofegante:
- Tio Anton, foi você que me deu este presente.
- Sim, foi eu – respondi.
Rindo, notei apenas o amiguinho que o acompanhava dizer:
- Bah, mas que tio legal.
O detalhe é que não fiz nada demais para ser o tio legal de William e do
amiguinho dele. Apenas comprei um presente de criança pra o pequeno que
aquela tarde comemorava seu sexto aniversário. Fiquei feliz por isso.
Crianças precisam ser crianças. Precisam de festas de aniversário,
precisam cair de bicicleta, precisam de um puxão de orelha quando falam
palavrão para alguém mais velho. Crianças precisam ser educadas.
Estranha-me um país onde se exige que pais e mães não tenham o direito
de educar seus filhos, concedendo-lhes algum corretivo quando
necessário.
Os crimes banais que estamos nos acostumando a presenciar quase que
diariamente são reflexo de uma sociedade que perdeu o rumo. Está sem
comando e com seus princípios e fundamentos deteriorados. A educação
mambembe e libertina que nos transformou no que somos. Assistimos a
programas de televisão que duvidam de nossa inteligência e ouvimos
músicas com duas frases tolas e rimadas, apenas, porque em algum momento
de nossa história, perdemos nossas referências.
Não tenho maiores pretensões que a de ser um tio legal para William, seu
amiguinho e seus irmãos mais novos. É responsabilidade fazer às vezes
de pai, quando não existem mais referências do portão de casa pra fora
ou a partir do momento que a televisão ou o rádio estejam ligados. Por
ora, e sem hesitar como quando escolhia o presente de William, prefiro
ser apenas um tio legal. Nada além, nada a mais.