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Anton Roos - Ponto de Vista
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*Formado em Jornalismo e pos graduando em Jornalismo Digital
E-mail: antonroos@gmail.com

DEZEMBRO PRECISA FAZER SENTIDO
Lembro-me de ter saído de casa sabendo onde estavam todos os presentes de Natal daquele ano. Guardados na parte superior do guarda-roupa de minha saudosa mãe. Tinha doze anos. Estava radiante. Tios e primos reunidos. Era um Natal diferente. Recordo de termos saído todos para o casamento de minha tia mais nova. Era 22 de dezembro. Mal sabia que não voltaria para casa aquela noite e que nunca mais veria os presentes. Nem eu nem meus primos e primas. Meu irmão. Ninguém. Um curto circuito incendiou a casa que morávamos. Um chalé de estilo europeu, branco com as portas e janelas de um verde intenso e especial. As fotos daquele casamento não me deixam mentir. Havia tristeza nos olhares. Muitos deles vagos. Perdidos.

    Sofrer uma perda em dezembro é das piores sensações possíveis. Seja material, como a minha, ou pessoal com a perda de um alguém que se ama. Há quatro natais, eu ajudei uma criança a sorrir. Gabriel era o nome dele. Tinha 4 anos na época. Dediquei um texto só pra ele (ver edição 162), falando da experiência que tivemos. Era um menino amargurado, que sofrera cedo a perda do pai e as turbulências de um lar em pedaços. Em um das muitos jantares que presenciou ao lado da mãe, no entanto, viu algo que lhe intrigou. No meio dos convidados, um deles, embora não usasse as indumentárias vermelhas do Papai Noel se assemelhava muito com aquele cara. Ele sabia que a barba do papai noel era feita de algodão. A daquele cara que ele observava com o canto do olho era real.

Não resistiu a tentação e perguntou a mãe: Mãe, quem é aquele tio ali. A mãe, sem pestanejar, respondeu: Gabi, aquele tio trabalha com o papai noel. Gabriel se espantou. Os olhos brilharam. Um sorriso quis escapar do seu rosto. Mas restava a dúvida. Será mesmo que aquele cara barbudo conhecia o verdadeiro papai noel?. Era sua chance. Precisava tomar coragem e falar com ele. Tinha vergonha. Procurava uma oportunidade de se aproximar. Sua mãe percebendo a inquietação do filho, o instigou a ir até ele.

- Vai filho, pergunta pra ele. Pergunta se ele não trabalha com o papai noel. E lá foi Gabriel. Coração em disparada, correu e estancou diante do homem a sua frente e perguntou: - É verdade que você trabalha com o papai noel? O susto mudou de lugar. Quando vi aquele garotinho e percebi o brilho nos seus olhos, não titubeei e respondi que não só trabalhava com o papai noel, como o conhecia e que era seu amigo. O rosto do menino se iluminou. Um riso alto tomou conta do lugar. Gabriel correu para os braços da mãe para contar a novidade. O sonho voltara aquele pequeno coração. Gabriel acreditava em papai Noel.
   
    Sorri. Sem querer, mudei o Natal de Gabriel. Mudei seu dezembro. Essa história me fez aprender que em dezembro, muito mais que nos outros onze meses do ano é preciso ser amável. Diz-se, que justamente por se dezembro, as pessoas devem estar mais dispostas, sem o peso de todo um ano de trabalho e mais trabalho nas costas. No fundo, impõe uma sensação de falso conforto. De alívio. Dezembro é o mês que temos de ser mais educados que qualquer outro no ano.
Em dezembro também há um aquecimento do comércio. Presentes e essas coisas que aprendemos a idolatrar desde crianças, crendo na existência de um velho de barbas brancas e espessas que viaja em um trenó voador distribuindo presentes e pavimentando o imaginário de crianças como Gabriel. Existe por simbolismo, até necessidade. Sem ele, dezembro, talvez fosse um mês como outro qualquer e as pessoas não demonstrariam estar um pouco mais educadas que de costume. A maioria não está. É fachada. Exigência social, nada mais.

Talvez por conta dessa tal exigência social em ser mais educado que o normal em dezembro seja promovido tantos “amigos secretos” entre funcionários da firma e parentes, até aqueles insuportáveis que não se vê há décadas. Não fosse essa genial invenção, os menos tolhidos na arte de fazer amigos e serem populares na repartição que trabalham, não receberiam nem uma meia nova do bom velhinho. O comércio teria de se contentar com alguns brinquedos para não entristecer a molecada e deu. Dezembro não seria o que é. Não mesmo. Da perda dos presentes e da casa onde morava naquele longínquo Natal aos 12 anos à história de Gabriel, de algum modo, como fez pra mim, dezembro há de fazer sentido para você também. Acredite.
Fonte: Jornal Classe A

 
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