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Anton Roos - Ponto de Vista
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*Formado em Jornalismo e pos graduando em Jornalismo Digital
E-mail: antonroos@gmail.com

A AUTOESTIMA E O GUARDA-CHUVA
 Pela manhã há quem saia de casa de bicicleta ou a pé. Não são todos que dispõe de recurso ou coragem para endividar-se com um veículo, novo ou usado. Acordam cedo, forram a pança com pão, manteiga e café e partem para o laboro.

Com a chegada de novembro, são obrigados a incluir na lista de necessidades básicas, um guarda-chuva. Sem ele, correm um sério risco de, ao retornarem para suas casas, no fim do dia, serem acometidos por um banho indesejado, inoportuno e, porque não, humilhante. Ninguém, que não as crianças e os “índios dançarinos”, ao ver o primeiro filete cinza no céu, pensa em sorriso:
- Hoje pode ser um bom dia para um banho de chuva.

Não.

Banhos de chuva são e devem ser esporádicos. Mesmo as crianças, quase sempre, acabam xingadas e até castigadas, com dois ou três tabefes na poupança assim que retornam para seus lares com as roupas encharcadas depois de regozijarem-se nas poças formadas pela chuva.

Para quem trabalha e faz contas no final do mês banhos de chuva são como um soco no estômago, um assalto a mão armada na porta da agência bancária logo após o recebimento dos proventos.

Em pouco mais de trinta minutos a água que desabou dos céus, no fim da tarde de segunda-feira, 31 de outubro, fez reinar o caos. No horário de pique, no fim do expediente. Quando todos, em absoluto, após bater ponto, e se despedir dos colegas de firma retornavam para suas casas.

Naquele instante.

No momento em que o céu tingido de cinza abriu sua braguilha e despejou toda água a que tinha direito. Como se tivesse passado as últimas horas bebericando duas térmicas ininterruptas de chimarrão sem ir ao banheiro uma vez sequer.

Desse jeito.

O deságüe não demorou a formar corredores nas esquinas com a água a descer em cascata. Como num rio revolto e de fortes correntezas. Nesse cenário os sem guarda-chuva e transporte dividiram espaço com as motos e carros que rasgavam a Paraíba sentido Ottomar. Sem esperança, não lhes restou alternativa senão deixar que a chuva lhes ensopasse o uniforme da empresa.

Cansada, uma mulher retira o sapato e segue com os pés descalços. É o limite. Não tira as roupas todas por educação. Conveniência. Para não ser acusada de atentado ao pudor. Aposto que teve vontade. Ultrajada, humilhada, e sozinha teve de vencer as buzinas, os respingos, a vergonha e seguir. Pensando, talvez num banho quente e na novela das oito. Seguiu ensopada.

Um banho de chuva, quase sempre e em resumo, é uma afronta para a autoestima de alguém. Afinal, ninguém pede para tomar um banho de chuva justamente na hora de voltar para casa ou ir para o trabalho. É incoerente acreditar que uma pessoa entenda como natural, logo que a temporada chuvosa tenha início, a freqüência de banhos de chuva.

- Quantos banhos de chuva você tomou esta semana?

- Hummm...três e você?

- Ah, eu só tomei um, graças a Deus.

Não. Da lista de diálogos absurdos, este precisa ser extinto. Por mais dificuldades que uma pessoa possa passar, fazer dos transtornos provocados pela chuva uma rotina é o fim da várzea. Nenhum ser humano merece, ainda que, num belo dia, venham lhe bater a porta um vendedor de novos e super resistentes guarda-chuvas. Nem assim. Um novo guarda chuva não é sinônimo de mais autoestima.

Fonte: Jornal Classe A

 
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