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Anton Roos - Ponto de Vista
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*Formado em Jornalismo e pos graduando em Jornalismo Digital
E-mail: antonroos@gmail.com

VIVA, MAS NãO DEIXE MORRER
Quando Paul McCartney se despediu pela última vez do público gaúcho, no final da noite do domingo, 7 de novembro de 2010, precisei de cinco minutos para respirar. Queria guardar o momento. Imortalizá-lo. Faltava pouco para a meia noite. Sentado em uma das cadeiras do anel superior do Estádio Beira Rio, deixei-me observar a viagem dos papéis picados largados ao vento depois de encerrado o espetáculo. Sorri. A ficha ainda precisava cair: “eu assisti o show de um beatle”, pensava alto.

Embora nunca tenha sido um fã ardoroso dos Beatles, aprendi a apreciar e, principalmente, respeitar a obra que Paul e os demais garotos de Liverpool produziram em sua meteórica carreira. Não fosse a chance que dei para sua música, talvez não soubesse, ou mesmo tivesse dificuldade em compreender que a obra de John, Paul, George e Ringo está um patamar acima de tudo o que foi criado a partir do momento em que as sonoridades de guitarra, contrabaixo, bateria e vocal foram unidas para o bem comum.

Testemunhar, in loco, em meio a uma multidão de mais de 50 mil pessoas a interpretação de canções atemporais como “The Long and Winding Road”, “Eleanor Rigby” e “Day Tripper”, por exemplo, torna autossuficiente a constatação: Os Beatles são muitomais que uma banda de rock. Repetir que eles foram a banda mais influente da história, depois de assistir Paul dedicar em claro e bom português, canções para os amigos John (“Here Today”) e George (“Something”) é chover no molhado, e soa tão inadequado quanto tentar explicar que razões fazem com que milhares de pessoas, entre jovens recém iniciados em discos como Abbey Road ou Revolver, ou mesmo senhores e senhoras acima dos 50 anos enfrentem o calor e o sol de meia tarde em filas mal organizadas e estafantes.

A propósito, a lógica é simples. Bastou uma primeira frase dita em português e a execução de “All My Loving” para que toda a maratona de um dia ou mais diante dos portões do antro colorado fizesse sentido. Impossível não se emocionar com o talento e o carisma de sir Paul McCartney. Paul é único. Uma entidade da música e da arte contemporânea. Uma lenda que está viva e presenteando platéias ao redor do globo com momentos ímpares como os da noite de 7 de novembro e depois, 20 e 21 de novembro em São Paulo e recentemente, 21 e 22 de maio no Rio de Janeiro.

O show que tive o prazer de assistir de Paul teve mais. Teve “Ob-la-di, Ob-la-da”, então tocada pela primeira vez no Brasil. Teve uma legião de cinquentões se deliciando e relembrando as letras das músicas que embalaram sua adolescência. Teve honestidade. Em momento algum das quase três horas de concerto, o velho Macca soou tempestivo ou cumprindo com alguma obrigação daquelas que fazemos de cara amarrada e a contra gosto.

Em resumo, e antes que torne esses parágrafos mais pegajosos do que já estão, pergunte para qualquer bendito ser que teve a sorte de assistir ao espetáculo: o que o vegetariano e sessentão ex-beatle fez naquela noite em Porto Alegre – e, óbvio, nas demais noites em que tocou para os brasileiros – pode-se julgar, sem demagogia alguma, como uma verdadeira lição de amor a vida e a música. O encontro tardio do ídolo com os fãs, hoje acima dos 50 anos. Fãs que dançaram e não tiveram vergonha em enxugar os olhos lacrimejantes quando Paul sentou ao piano para cantar “Let it be” e “Heyjude”. O show daquele – já tão longínquo –7de novembro foi também o sonho daqueles que aprenderam desde o berço, ou mesmo, foram concebidos ao som de um dos inúmeros sucessos criados pelo grupo britânico.

Paul é, por fim, um vendedor de sonhos. De momentos felizes. Estes que a cada dia parecem estar mais e mais em falta. Afinal, falta-nos tempo, diálogo, respeito. Falta-nos um pouco de tudo. Desligue a televisão, esqueça a novela, os sites de relacionamento na internet. Convide quem amas para um passeio de mãos dadas no fim da tarde. Converse. Viva, mas não deixe morrer. Obrigado, Paul.
Fonte: Jornal Classe A

 
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